noiva de cristo

A Noiva de Cristo

Nos estudos sobre escatologia bíblica, a Noiva de Cristo é comumente mencionada. De fato, ela aparece no livro de Apocalipse. Todos sabemos que a Noiva de Cristo é a Igreja, formada pelos que foram salvos pela graça, através da fé em Cristo e em Sua obra na cruz. O que costuma gerar mais dúvidas é como, e quando, a Noiva chega no céu, bem como, até que ponto, na cronologia do fim dos tempos, alguém pode ser considerado como parte da Igreja / ‘Noiva de Cristo’. Este é o tema deste artigo.

Muitos estudiosos de profecias bíblicas, de crença pré-tribulacionista e dispensacionalista, apresentam uma ideia de que todo o período de 7 anos que precede a 2ª Vinda de Cristo seria a ‘Tribulação’, a qual equivaleria ao derramamento da ira de Deus, na Terra. Na visão deles, se o crente “não é destinado à ira” (cf. 1 Tessalonicenses 5:9), então, todos os crentes que estiverem vivos na Terra no momento imediatamente antes do início da tão chamada “tribulação de 7 anos” (termo usado por eles), precisariam ser removidos, através de um arrebatamento (daí o nome ‘pré-tribulacional’). Segundo eles, a Noiva de Cristo seria a Igreja sendo retirada da Terra, mais todos os salvos que já estão no céu. Juntando esses dois grupos, estaria demarcado o fim da ‘era da Igreja’ e, a partir daí, Deus passaria a lidar com Israel, e não mais com a ‘Igreja’, e a ‘porta da Graça’ estaria fechada nessa última ‘dispensação’. O entendimento deles também inclui a noção de que, durante o período inteiro de 7 anos, no céu, aconteceria a ceia das bodas do Cordeiro, enquanto a tribulação acontece na Terra.

Também é bastante comum que os que aderem a essa posição falem sobre a analogia do casamento judaico. Eles explicam que, na antiga cultura hebraica, se jovens iam se casar, haveria uma cerimônia de ‘noivado’ que, diferentemente do noivado dos dias atuais, não era somente uma manifestação da intenção de casar, mas a celebração de um contrato formal de casamento, que só poderia ser desfeito com o divórcio. Nessa cerimônia, a noiva precisava manifestar a sua concordância dizendo ‘sim’ ao beber a taça de vinho durante a cerimônia de noivado; o noivo, em algum momento pagaria um dote aos pais da noiva e, em seguida, ele partiria para providenciar a construção de uma casa, geralmente no terreno em que seus pais moravam, ou em um anexo à casa de seus pais. Durante esse período, até que a noiva fosse conduzida à nova casa, pelo noivo, o casamento ainda não era consumado, e o casal tinha a obrigação mútua de fidelidade, porque já eram considerados desposados (como foi o caso de Maria e de José). Somente quando a casa dos noivos ficasse pronta, segundo critério do pai do noivo, o noivo seria liberado para ir buscar a noiva. Com o contrato de casamento já firmado desde a época do ‘noivado’, faltava apenas o noivo trazer a sua noiva — muitas vezes, no meio da noite, de maneira repentina, como uma espécie de ‘rapto’ — para ir morar com ele, consumarem o casamento e iniciarem a sua vida a dois, formando uma nova família. Até então, a noiva deveria sempre estar de prontidão, enquanto ia montando o seu enxoval e se preparando. Ao chegarem na casa nova, havia uma festa para recepcionar os noivos (a ceia das bodas) e para celebrar o início propriamente dito da união.

Nessa interessante analogia, o dote seria o sacrifício que Jesus fez na cruz para comprar a nossa salvação eterna, o ‘sim’ da noiva seria o momento em que alguém coloca a sua fé em Jesus como único e suficiente Salvador, a construção da casa do noivo no terreno/casa dos pais seria Cristo preparando a nossa morada no céu (João 14:1-3), o rapto da noiva seria o arrebatamento da Igreja em um dia desconhecido, podendo ser até mesmo no meio da noite. A festa de casamento seria a ceia das bodas do Cordeiro que, para esses estudiosos, teria a duração de 7 anos inteiros, no céu (até o dia da 2ª Vinda), enquanto a tribulação acontece na Terra, e enquanto toda a Igreja já está no céu como a Noiva/Esposa de Cristo. Ao fim dos 7 anos, Cristo voltaria à Terra, para o iniciar o Seu reino milenar. Esta é a visão predominante dos aderentes da visão pré-tribulacionista e dispensacionalista.

Embora a figura do casamento judaico seja belíssima, em nosso entendimento, essa metáfora não pode ser o fundamento que define a nossa escatologia. Ela pode ilustrar alguns aspectos de o que Cristo fez e fará para ter a sua Noiva, mas não funciona como uma ilustração completa, que possa servir como a principal referência para o processo inteiro. Além disso, a própria ‘tradição do casamento hebreu’, na época do Antigo Testamento e no primeiro Século, não é fornecida em detalhes, nas escrituras. Em síntese, mesmo que a analogia tenha o seu valor e seja bonita e inspiradora, precisamos ter muito cuidado para não tirar conclusões a partir das tradições do casamento judaico. A nossa principal fonte precisa ser a informação que o próprio Deus Pai nos deu: o livro de Apocalipse.

Em outras postagens neste blog, já explicamos:

  1. que não há nenhuma passagem bíblica que diga que o 1º Selo de Apocalipse seja necessariamente aberto exatamente no início do período de 7 anos;
  2. que os 7 anos não começam com a assinatura de um “Acordo de paz” pelo Anticristo, pelo fato de essa interpretação ser uma leitura equivocada da profecia de Daniel (mais sobre isso aqui);
  3. que não existe fundamento para afirmar que todo o período de 7 anos que precede a 2ª Vinda de Cristo seja de tribulação e perseguição;
  4. que a Tribulação propriamente dita começa no momento em que o Cordeiro pega o pergaminho, no céu, diante dos 24 anciãos (que representam o primeiro grupo de crentes glorificados, já no céu) e abre o 1º Selo de Apocalipse. O 1º Selo pode vir a ser aberto vários meses depois do início dos sete anos (que se inicia com o ministério, não necessariamente público, das Duas Testemunhas);
  5. que não há nenhuma passagem bíblica que diga que todo o período de 7 anos seja equivalente à ‘ira de Deus’. Veja mais sobre isso aqui.

Com relação à Noiva de Cristo, se investigarmos adequadamente o texto bíblico, veremos que não há referência à Noiva de Cristo sendo levada para o céu antes de os 7 anos começarem. Precisamos encontrar o que pode ser, de fato, comprovado na Bíblia. As perguntas que precisam ser feitas são:

  • O livro de Apocalipse, que conta a história do fim dos tempos, menciona a aparição da Noiva no céu antes dos 7 anos começarem? A resposta é não, não vemos a noiva de Cristo sendo mencionada antes do final da história, em Apocalipse 19 até 22. Esses são os capítulos onde você realmente vê a Noiva de Cristo, e ela é comparada a uma cidade.
  • Vemos uma ceia de casamento de 7 anos? Não, a ceia das bodas do Cordeiro também é mais tarde na história e não acontece no início dos 7 anos.

É preciso se levar em consideração que, se a ira de Deus só é derramada próximo ao fim, bem depois do início do reino da Besta, isso significa que, mesmo após o primeiro arrebatamento, poderá haver crentes na Terra durante qualquer período entre o início dos 7 anos e o momento que imediatamente antecede o início do ‘Dia do Senhor’. Em outras palavras, poderá haver crentes remanescentes na Terra até instantes antes do momento em que a ira de Deus começará a ser derramada (a ira de Deus é equivalente ao juízo das Taças, em Apocalipse). Desta forma, o argumento de que Cristo não permitiria que crentes ficassem na Terra durante a Tribulação ‘porque isso equivaleria a Ele maltratar a própria Noiva’, não faz sentido, porque a ira de Deus não é derramada no início da Tribulação. A ira só vem a ser derramada em algum momento depois do 6º Selo de Apocalipse, quando não mais haverá nenhum crente remanescente na Terra.

A Noiva em Gênesis

Para entendermos Apocalipse, muitas vezes precisamos voltar a outros livros da Bíblia. Um desses livros é Gênesis, que contém informações fundamentais, por causa de tantos tipos e figuras ali apresentados.

Em Gênesis 3:15, vemos que a primeira profecia da Bíblia é que, no futuro, haveria um embate entre o descendente da serpente (a Besta, possuída por Apoliom) e o descendente da mulher (Cristo), para determinar a propriedade e controle da Terra. Precisamos entender como Deus criou o homem e a mulher, e como Adão (que significa ‘homem’) e a mulher se tornaram um casal. A história de Adão e a mulher, no jardim do Éden, é o núcleo central da semente da história de Cristo e da Igreja.

O capítulo 2 de Gênesis fala sobre a criação do homem e da mulher em mais detalhes. No capítulo 1, vemos que Deus os criou como macho e fêmea. No capítulo 2 a narrativa é expandida:

“Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente.” Gênesis 2:7

Esta é a criação do primeiro homem (Adão). A palavra usada é que Deus o formou, do pó da terra. A tradução em inglês da palavra hebraica, yatsar (יצר), é ‘moldar ou apertar para obter uma forma’. Yatsar é uma palavra muito usada nos trabalhos de oleiros (ceramistas) e ao artesanato do barro. Deus formou o homem da mesma maneira que um oleiro moldava um vaso de barro.

“Mas agora, ó Senhor, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos.” Isaías 64:8

Adão foi formado do pó da terra, da mesma maneira que um oleiro forma um vaso. Então Deus soprou espírito e vida no homem, e o homem se tornou um ser vivente, criado à imagem de Deus, alguém capaz de ter um relacionamento íntimo e pessoal com o Seu Criador. Deus colocou o homem em um belo jardim e lhe deu o trabalho de cuidar do jardim. O Senhor ainda não havia criado a mulher e, antes de fazê-lo, Deus desejou ter a cooperação de Adão — o ‘sim’ de Adão ao plano de Deus.

Primeiro, Deus queria que Adão reconhecesse a sua necessidade de uma companheira e ajudante. O Senhor fez com que os animais passassem diante de Adão para que ele os nomeasse. Enquanto Adão olhava os animais, percebeu que eles vinham em pares — um macho e uma fêmea — e, de todas as criaturas que passavam diante dele, não havia nenhuma que tivesse a mesma natureza que ele. Adão estava sozinho. Embora estivesse vivendo na beleza do Éden, em um mundo sem pecado, e desfrutando de comunhão com Deus, o homem percebeu que ele era o único de sua espécie. Isso não foi bom, e sem dúvida o Senhor disse a Adão que desejava fazer uma companheira para suprir essa necessidade de amor humano e de companheirismo. Mas, para que essa nova criação fosse viabilizada, Deus pediu a cooperação de Adão: ele precisaria cair em sono profundo e permitir que Deus tirasse uma costela do lado dele. Deus faria a mulher usando a costela do homem — com o que Adão consentiu.

“Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele. Disse então o homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada”. Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.” Gênesis 2:21-24 (NVI)

Esta é uma bela história que, além de real, também serve como uma figura profética, uma ilustração e alusão para a história maior de Cristo, que entrou no sono profundo da morte por nós, para que a nossa salvação pudesse ser comprada. Do lado ferido de Adão, Deus tirou uma costela e fez a mulher, e do lado ferido de Cristo na cruz, enquanto Ele ‘dormia’, nós nascemos, viemos à existência por causa de Suas feridas. Nós viemos d’Ele. Essa é uma das razões pelas quais fazemos parte de Seu corpo. Está escrito que ‘esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’. (Gênesis 2:23).

No verso 22, há uma palavra diferente usada para o relato de como a mulher foi feita: Deus formou o homem do pó da terra, da mesma maneira que um oleiro formaria um vaso de barro; mas Deus não ‘formou’ a mulher. As escrituras nos dizem que Deus fez a mulher”. A palavra hebraica traduzida como ‘fez’, na Bíblia, é banah (בנאה), que é um termo de construção civil, frequentemente usado para se referir à construção de casas, prédios, pontes, estradas ou cidades. Na Bíblia, aparece no caso de construção de edifícios, altares ou cidades.

Adão foi ‘formado’, mas a mulher foi ‘feita’, no sentido de ‘construída’, como se ela fosse um edifício, ou uma cidade. E sabemos que somos construídos, como crentes, como templo de Deus, e sabemos da Nova Jerusalém, que vai descer como uma noiva, do céu, e que será a nossa casa.

Há várias passagens interessantes no Novo Testamento que falam sobre os crentes nesse contexto da construção. Em Mateus 16, no verso 18, Jesus diz:

“Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. Mateus 16:18

Jesus disse que Ele iria edificar a Sua igreja. Algo que é construído leva algum tempo, para que cada pessoa seja colocada nesse prédio que Ele está criando, chamado de Igreja, ou ‘ekklesia’, que significa ‘os chamados para fora’. Paulo fala sobre isso também, no livro de Efésios, e em outros lugares. Vejamos Efésios 2 versos 19 e 20:

“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem-ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.” Efésios 2:19-22

Nesse trecho da carta de Paulo aos Efésios, esta é a versão grega do verbo ‘construir’ ou ‘edificar’, que se refere ao templo de Deus que somos, corporativamente. Somos este edifício feito sem mãos, este templo de Deus que está sendo construído, cuja fundação são os apóstolos e profetas. Eles lançaram o fundamento para a nossa fé. Até mesmo no livro do Apocalipse, quando vemos a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, ela tem 12 fundações, e nessas fundações estão os nomes dos 12 apóstolos do Cordeiro.

A próxima passagem que vamos examinar é de 1 Pedro 2:4-6. Pedro se refere aos crentes como pedras vivas, conectadas entre si e construídas em uma casa espiritual, com a pedra angular (o ponto de referência e de partida da construção) sendo Cristo:

“Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo. Pois isso está na Escritura: Eis que ponho em Sião uma pedra angular, eleita e preciosa; e quem nela crer não será, de modo algum, envergonhado.” 1 Pedro 2:4-6

Mais adiante, no verso 9, ele diz:
“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. 1 Pedro 2:9

Nessas passagens de 1 Pedro, ficam claras as imagens do do sacerdócio real, da nação sagrada e a raça escolhida, os ‘chamados para fora’: os crentes sendo construídos nesta habitação para Deus.

Como isso se aplica ao tempo do fim?

Examinando o livro de Apocalipse, vemos que a nova Jerusalém desce do céu. Sabemos que, quando isso acontecer, essa cidade será o templo de Deus, e que não haverá mais a necessidade de um templo como aqueles do Antigo Testamento.

A Noiva de Cristo é mencionada como um termo sinônimo da Nova Jerusalém, que é o lugar que Cristo está construindo para nós. Nosso entendimento é que a Noiva não é uma cidade literalmente falando, mas que a cidade é uma referência à Noiva. Muitas vezes, é dito que a ‘Casa Branca’ informou tal e tal, e sabemos que quem informou foi o governo federal dos Estados Unidos, que tem sede na Casa Branca. Muito provavelmente, a Nova Jerusalém tem conotação análoga, em relação à Noiva. É usada de maneira intercambiável e sempre tem a ver com a Noiva, ou seja, os crentes salvos e glorificados, corporativamente falando.

Quem compõe a ‘Noiva’?

Sabemos que o livro do Apocalipse fala sobre como diferentes grupos de sacerdotes chegam no templo celestial, para se encontrarem com Deus e servi-lo em Sua presença. O número ’24’ representa os turnos ou divisões de sacerdotes (cf. mencionado 1 Crônicas 24), que se revezavam no serviço do templo. Eles irão se apresentar no céu, onde está a ‘sala do trono’ de Deus, o local que era simbolizado pelo recinto chamado de ‘o Santo dos Santos’, no templo em Jerusalém. Apenas sacerdotes podiam entrar no Santo dos Santos. Cristo abriu um caminho para que nós, como reis e sacerdotes, pudéssemos entrar na presença de Deus. Nenhum humano que não tenha um corpo glorificado pode estar diante do trono de Deus, no templo celestial.

Em outras postagens, falamos sobre os diferentes grupos de pessoas que vão chegar no céu, a partir do dia da ressurreição dos crente falecidos e do subsequente arrebatamento dos crentes vivos que comporão o grupo chamado de ’24 anciãos’. Nem todos os que chegarem no céu depois do primeiro arrebatamento chegarão lá por meio da morte. Muitos, de fato, serão martirizados durante a Tribulação, mas muitos não serão.

Um detalhe muito interessante, que poucos estudiosos de escatologia observaram é que, durante a tribulação, aqueles que chegam ao céu de uma forma diferente do martírio, se apresentam ‘de pé’, diante do trono de Deus, no Santo dos Santos do templo celestial. Além disso, eles cantam um ‘novo cântico’ e adoram, com harpas nas mãos. Estes são grupos de pessoas que chegaram no céu em um evento de arrebatamento. Somente os que chegam ao céu por meio de um arrebatamento são mencionados como cantando um ‘novo cântico’. Esta é uma pista importante!

A visão dispensacionalista tradicional preconiza que somente as pessoas que são crentes até a ocasião do primeiro arrebatamento (que, para os aderentes dessa posição, seria o único, e que aconteceria antes do início da ‘tribulação de sete anos’), são a Noiva de Cristo, que seria a Igreja composta somente por crentes até aquele momento. Eles entendem que, quem vier a crer em Cristo depois daquele arrebatamento pré-tribulacional, não faria parte da igreja, pelo fato de outra ‘dispensação’ começar no momento seguinte àquele arrebatamento, e que a dispensação conhecida como ‘a era da Igreja’ se encerraria naquela altura. Segundo eles, os que vierem a crer em Cristo depois da partida da Igreja, via arrebatamento, ou seja, os ‘santos da Tribulação’, não fazem parte da ‘ekklesia’ (os ‘chamados para fora’), ou seja, da Igreja do Senhor. Por isso, eles não seriam parte da Noiva de Cristo.

A ótica descrita no parágrafo acima nos parece profundamente equivocada, porque qualquer um que vem a Cristo pela fé e é selado com o Espírito Santo, é um crente e, por isso, parte da ‘ekklesia’, como todos os outros.

O crente é salvo por graça, através da fé em Cristo. Todos os que vierem a crer em Cristo depois do arrebatamento até antes do momento em que “todo olho O verá”, em Sua 2ª Vinda, visível e gloriosa, serão pessoas salvas pela fé, seladas com o Espírito Santo. Apocalipse deixa bem claro que os 144k serão selados. O selo é do Espírito Santo. A Bíblia nos diz que o selo é a garantia de nossa glorificação, e da nossa habilidade de acessar o céu em um corpo espiritual. Também sabemos que ninguém pode aparecer no céu, na presença de Deus, a menos que tenha um corpo espiritual, e as únicas pessoas que terão corpos glorificados como Cristo são os crentes.

Portanto, há grupos de pessoas que crerão em Cristo, por fé, depois do primeiro arrebatamento, e essas pessoas receberão o Espírito Santo. Apocalipse 5:6 diz que os 7 chifres e os 7 olhos do Cordeiro são os 7 Espíritos de Deus, enviados para toda a Terra. Fica claro que o Espírito de Deus é enviado por Deus Pai e pelo Senhor Jesus para habitar os crentes que estão na Terra, durante a Tribulação.

Embora, a partir de determinado momento, seja bem verdade que não será mais possível crer pela fé (veja 2 Tessalonicenses 2:9-13), devido à ‘operação do erro’ que Deus enviará para todos os que creram na mentira, é preciso reconhecer quem entre o momento da abertura do 1º Selo (início propriamente dito da Tribulação) e o Dia do Senhor (que é após o 6º Selo), haverá grupos ou divisões do sacerdócio que irão para o céu também. Explicamos isso em nosso artigo ‘Como os grupos de crentes chegam ao céu‘, que recomendamos que confira.

É nosso entendimento que, depois que todos os crentes que remanescerem na Terra (os ‘santos da Tribulação’) forem levados no último arrebatamento (instantes antes do Dia do Senhor), a ‘colheita’ de crentes terá sido totalmente concluída. A ‘era da Igreja’ termina no Dia do Senhor, que acreditamos que irá acontecer alguns meses antes da 2ª Vinda. Nesse dia (o Dia do Senhor), na Terra, a ira de Deus será derramada, especialmente sobre o reino da Besta, com efeitos devastadores. E, no céu, haverá o Tribunal de Cristo e, em algum momento depois disso, haverá a Ceia das Bodas do Cordeiro, quando a Igreja estará celebrando um dia extraordinário e muito feliz, com o Senhor Jesus Cristo. É bastante possível que a coroação de Cristo, como Rei, também seja no Dia do Senhor, no céu. Em resumo: Na Terra, o Dia do Senhor equivale a juízos e tragédias de proporções inimagináveis. E, no céu, será um dia de imensa alegria e comemoração.

Uma vez que todos os crentes estejam no céu, com seus corpos glorificados, só então, a Noiva terá se tornado pronta, e é isso que lemos em Apocalipse 19. A noiva não aparece em Apocalipse até aquele ponto:

“Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória, porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos. E disse-me: Escreve: Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro. E disse-me: Estas são as verdadeiras palavras de Deus.” Apocalipse 19:7-9

Vemos, então, que a Noiva só estará pronta depois que o último grupo de crentes chega ao céu, e que a ceia das bodas do Cordeiro não acontece antes disso. A ideia de que a ceia das bodas do Cordeiro teria a duração de 7 anos inteiros, enquanto a tribulação acontece na Terra, não tem fundamento. A ceia das bodas do Cordeiro só acontece depois que a Noiva se torna pronta, e isso é no final, pois depende da chegada de todos os grupos!

Em seguida, o capítulo 21 fala sobre a Cidade Santa descendo do céu, descreve a sua aparência, e que há 12 fundações que têm os nomes dos 12 apóstolos escritos nelas. Diz, também, que há grandes muros altos e há 12 portões com os nomes das 12 tribos de Israel.

As únicas ‘partes’ da Nova Jerusalém que recebem nomes são os dois grupos apostólicos: um é o grupo dos 12 apóstolos, o outro é o grupo dos 144k que virão das 12 tribos de Israel, cujos nomes estão nos portões. Os 144k de Israel serão os novos apóstolos, depois do 1º arrebatamento (o grupo dos 24 anciãos).

Em seguida, em Apocalipse 22, aprendemos que é o trono de Deus estará na Nova Jerusalém, e que o rio da vida flui do trono de Deus, e que a árvore da vida está lá. Estamos sendo construídos neste templo, somos as pedras vivas que estão sendo trabalhadas aqui na Terra para encontrar um lugar neste edifício ou habitação de Deus. E há grupos de pessoas que, por também se tornarem crentes antes da 2ª Vinda de Cristo, mesmo depois da abertura do 1º Selo, também farão parte da nova Jerusalém, que também serão ‘construídos’ nessa cidade.

Vemos, então, que a Noiva de Cristo (como um todo) não é arrebatada antes dos 7 anos, mas somente um dos grupos, que é parte da Noiva, será arrebatado antes da abertura do 1º Selo. Há vários outros grupos que chegarão ao céu durante a tribulação, seja via martírio, morte natural ou através de outros arrebatamentos (que serão mais dois, além do primeiro). Não existe uma ceia das bodas do Cordeiro que dure 7 anos inteiros no céu, enquanto a ira de Deus está sendo derramada na Terra.

No livro de Apocalipse, Deus quer que Seus servos saibam as coisas que vão acontecer. Não se pode obter uma escatologia do fim dos tempos sem o livro de Apocalipse, baseando-se somente em metáforas do casamento judaico dos tempos antigos.

Conclusão

Não é de se admirar que a Noiva de Cristo, que também é o Corpo de Cristo, seja representada como a Cidade Santa, a Nova Jerusalém no livro de Apocalipse. Assim como Deus ‘construiu’ a mulher no Jardim do Éden, a Noiva também é construída pelo Senhor, pedra viva por pedra viva, em uma habitação para Deus, que ficará pronta só depois que a última pedra viva chegar lá — e isso não acontece logo no início dos 7 anos que antecedem a volta de Cristo. A chegada das ‘pedras vivas’ no céu é por etapas.

Lado do tórax de Jesus aberto por uma lança

A história da criação da mulher, no livro de Gênesis, prefigura a história de Cristo e a construção de Sua Noiva. Nós, que confiamos em Cristo, somos parte do Corpo de Cristo: o novo corpo que saiu do Seu lado ferido quando Ele entrou no ‘sono da morte’, enquanto estava morto na cruz. Enquanto dormia, Adão teve a parte lateral de seu tórax aberta para que uma costela fosse retirada e fosse possível a feitura da sua mulher. É interessante observar que Jesus também teve o lado perfurado por uma lança, jogada por um soldado romano, de onde saiu água e muito sangue, o que possibilitou a redenção de muitos, e a ‘construção’ da Sua Noiva.

Cristo é o ‘último Adão’, o progenitor de uma nova raça da humanidade, que um dia, será como Ele é. O apóstolo Paulo diz:

“O primeiro homem, formado da terra, é terreno; o segundo homem é do céu. Como foi o primeiro homem, o terreno, tais são também os demais homens terrenos; e, como é o homem celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial.” 1 Coríntios 15:47-49

Todos aqueles que traçam sua ‘linhagem’ espiritual ao Homem celestial se tornarão como Ele, portando a imagem de Cristo, não mais apenas portando a imagem de Adão, o homem do pó. Eles possuirão um corpo glorificado como o corpo glorificado de Cristo e, através do ministério do Espírito Santo, também possuirão o caráter e a natureza de Cristo.

Assim como Adão estava sozinho no jardim, antes da criação da mulher, mesmo agora, Cristo é o único da Sua espécie, o único homem glorificado que existe no céu. Ele está sozinho na perfeição do céu e em comunhão com o Pai, mas, em todo o céu, não há mais ninguém que, no momento, já tenha a mesma natureza d’Ele.

No presente momento, os mortos em Cristo habitam no céu em seus espíritos, e devem aguardar a ressurreição dos mortos para receber os seus corpos glorificados. Até Enoque, Elias e Moisés — pessoas que foram levadas para o céu em corpos mortais, ainda não receberam corpos eternos e glorificados, mas aguardam o dia em que vestirão suas ‘vestes brancas’ — os seus corpos ressuscitados, glorificados e imortais.

Em João 14, Jesus disse a Seus discípulos que iria preparar um lugar para eles, para que pudessem estar com Ele no céu. Jesus usou ‘linguagem de noivo’, e Seus discípulos certamente reconheceram a analogia entre Jesus sair para ‘preparar um lugar’ e um noivo terminando a construção de uma casa, antes de levar a sua noiva para morar com ele.

Jesus foi o Filho Eterno que deixou Seu Pai, que deixou o céu, para encontrar uma ‘esposa’ e, depois que pagou o ‘dote’ nupcial, na cruz, subiu de volta ao céu para preparar um lar para nós na casa de Seu Pai. Quando tudo estiver pronto, Cristo virá buscar a Sua Noiva, pedra viva por pedra viva, da Terra, para estar com Ele no céu. No antigo Israel, a noiva era ‘comprada’ do pai da noiva. Quanto mais alto o preço da noiva, mais preciosa a mulher era para o homem. Nesta analogia, somos a Noiva que foi comprada com o sangue inestimável de nosso Noivo quando Ele morreu na cruz.

A Noiva ainda está sendo ‘construída’ à medida que mais e mais pessoas vêm à fé em Cristo. A Esposa do Cordeiro não estará completa até que o último grupo de crentes mártires ressuscitar.

Quando Deus criou Adão, Adão estava sozinho, e ainda não tinha uma companheira que tivesse a sua natureza. Adão precisou dormir, para que o peito dele fosse aberto, e uma parte dele fosse tirada, para fazer alguém de sua espécie. Esta é, justamente, a história de Cristo e da Sua Igreja. Esta é a história e quando Cristo se tornou um homem. Depois da encarnação de Cristo, Ele nunca mais deixaria de ser um homem.

Jesus, a partir da ressurreição, sempre será um homem vivendo em um corpo, mas um homem glorificado. Então, agora, Cristo é o único como Ele. Por enquanto, não há ninguém mais que seja glorificado como Ele. Deus sabe que não é bom que Ele esteja só. E assim, antes mesmo de Deus criar o homem, Ele concebeu o plano para que Cristo não fosse o único de sua espécie. A Noiva somos nós, todos os que creem n’Ele, que nascemos do alto, seja antes do primeiro arrebatamento, ou depois.

Aqueles que creem em Cristo fazem parte do Seu corpo. Somos um, com ele. Cristo está ansioso por esse dia, quando todas as pessoas que confiaram n’Ele, pela fé, que têm o Espírito Santo e que serão glorificadas, serão parte da Sua Noiva. Somente depois que todos os crentes já tiverem recebido os seus novos corpos, Cristo finalmente terá obtido a Sua Noiva, e ela estará inteira, e pronta. Cristo deve estar aguardando ansiosamente esse momento. Naquele dia, Ele não estará mais sozinho: “Ele verá o fruto do trabalho de sua alma e ficará satisfeito” (Isaías 53:11).

Fonte: livro A Kingdom of Priests: the stories of Revelation, de Brenda Weltner.

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